É um cantar que nasceu pelos corredores da fronteira, e há muito tempo é assim, andejar e andejar, distâncias que são encurtadas pelas patas de fletes, e relatadas aqui pelo linguajar próprio, de campo.

Aqui vamos relatar o que vivenciamos, sentimos e até os sonhos que nos rodeiam, a cada passo do flete destino de quando em quando firmamos os arreios do pensamento e paramos n'alguma porteira divisora de razões, daí que brotam as discussões, cada um defende suas origens, peleiam por algum ideal, mas não podemos esquecer de que andamos sempre "Compondo Rastros".

Cada um tem seu passado que cruzou, deixou "rastros", por isso temos que firmar a rédea do destino e seguir firme na estrada que escolhemos, é por aí o caminho que estamos "Compondo Rastros".


"Sou herdeiro dos caminhos,
Do rastro que me condena
Canto aqui as minhas penas
Colhidas por tantos pagos
Aroma de terra e pasto
Adoçado de sentimento
Que se mesclou aos ventos
Pra compor os meus rastros"



Carlitos da Cunha de Quadros

Santa Maria - 24/07/2010

Tempo Chuvoso


Radio Fronteira Gaúcha

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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Meu Retorno.



Ter pensamentos por ai, como a estrada que andei, hoje sinto falta de ser estrada, sou querência novamente.
Tem coisas que  não saem da cabeça ou  do coração.
Hoje um dia bagual de lida, pela manhã um frio áspero, pela tarde um frio com sol tímido dei uma caminhada solito, refletindo a vida, que um homem necessita disso, pra saber onde está, nunca esquecendo de onde saiu.
Tantas coisas me vieram, me fizeram sorrir sozinho, "pero tantas outras não precisava lembrar, de erros que não queria errar e de quem errou comigo, talvez estejam arrependidos, mas pra mim não valem de nada seus arrependimentos.
Então percebi que a vida vale mais a pena ser vivida um passo de cada vez, e que sofrida, todos os obstáculos vencidos serão o rumo para o sucesso.

"Meu mate amargo, ardeu como fel
Enrolando como sovéu o meu pensamento
Uma saudade, não sei de onde veio
Me atorou pelo meio e se foi com o vento."

Carlitos de Quadros

Créditos foto: Bia Barcellos


domingo, 8 de abril de 2012

Querência e fé.

Volto a entabular minhas palavras, no mesmo sentido e olhar sobre imagens de aspectos terrunhos 
de nossa gente, pátria, respeito a terra, querência e fé. 


Quantos caminhos por andar... mas mesmo longe sabemos que podemos alcançar um dia.
 As reflexões de tantos problemas que identificamos como uma perda em nossa trajetória, nos trará a coragem e o sabor dos frutos colhidos adiante, "Na benção do campo buscamos o abrigo", n'algum sorriso sincero as forças que refletem o viver. E o respeito - o espelho da alma, florescendo o que à de melhor em nossas vidas- 


Fui benzido no galpão, Por picumã e fumaça
Herdei meu sangue, minha raça ... E hoje me faço eterno...
Para mim e para os meus, Um regalo peço a Deus:
É ser puro feito pedra ou fortaleça meu cerno...

E constatar nas rendilhas que não se aprende na força...
...A mente de cada um, é um mistério... e se desvenda.
E algum que não aprenda pelos tirões do mundo
...Um sentimento profundo Surge de quem se lamenta.

Frente ao altar do campo, velando o clarão do  dia,
Da sanga bebi poesia que escorre em meu cantar!
E em cada desencilhar, n’algum olhar fogoneiro,
Me revela por inteiro, os motivos pra sonhar...

Está no canto altaneiro do "tajã gaucho" emplumado
Que canta em algum banhado as precisões de guardião
E aqui estou em oração na hombridade do canto
No versejar que me acampo, Apeio, e peço perdão.

No sacramento da aurora, benzidos pelo sereno
num potro mouro que enfreno já avistando o caminho.
Se trago um yuyo de vida pra adoçar meus amores
E levo Deus junto ao peito, jamais andejo sozinho!


Gustavo Martins- 
08 de abril de 2012





domingo, 3 de abril de 2011

Uma Breve história...

Há pouco menos que 300 anos, muitos dos “guanchos”* povoadores de Montevidéu migravam para fronteira com o Brasil. Deste gesto de liberdade surgiu “el gaucho”, nome este dado aos colonos fugidos,  estes chamados de vagabundos e ladrões, por incrível que pareça, assim éramos conhecidos.
 

Depois de uns 90 anos de pura miscigenação estavam tão enfurquilhados sobre essa terra que empunharam lanças e garruchas contra os dragões portugueses.
Então, brotava nos campos férteis da história, um caráter que se arrastaria até hoje.
Os campos cheiraram a pólvora e sangue durante 10 anos, nestes, ganhou o reconhecimento. Nos pensamentos de Giuseppe se nota o símbolo de bravura que se tornou o povo, "eu vi corpos de tropas mais numerosas, batalhas mais disputadas, mas nunca vi em nenhuma parte, homens mais valentes, nem cavaleiros mais brilhantes que os da bela cavalaria rio-grandense". Nestas fica claro o porquê das cavalarias de guerra dos países do Cone-Sul serem formados sempre por gauchos.
Os sábios e estudiosos diziam que enfrentar a coroa seria loucura, o fim.  Sim, o fim da razão. Loucos eram estes de lanças nas mãos e sangue pelas roupas. Loucos estes que num berro de selvageria davam seu sangue para ser esvaído e sua carne para ser decepada...
Homens que os julgavam loucos, por terra ficaram. Não ganhamos a guerra, não ganhamos dinheiro, mas ganhamos o que todo povo quer, aquilo que foi assinado no 1° de março de 1845, A PAZ. Mas de que nos adianta a paz? Se...



"...Os homens que foram bravos
Voltaram a ser escravos 
Do descaso que atropela...”
                           Rogério Villagran

Davi Canabarro já foi citado como herói; Porém pode-se enganar à um por anos mas não uma
nação inteira. Davi Canabarro, difícil de acreditar, levou nossos negros lanceiros para uma cilada,
pois sabia que seriam libertados.
 Tinhamos outros heróis fajutos, claro, porém nenhum deles conseguiria sujar esta história,
este caráter.
Cito o entendimento de Rubin Zaff, de que um povo só se une e se torna forte quando marcas
de tragédia ficam sobre ele.
Cito também esse escritor que, tenho prosperidade de pertencer à dois países ao mesmo tempo
do Brasil, por nascimento, e a República Federal do Pampa, La Pátria Gaucha, também por nascimento mas principalmente por formação histórica.



Guanchos*: Era o povo que o rei da Espanha mandou das Ilhas Canárias para Montivideo/UR.





Ariel Santiago de Quadros
Porto Alegre, Abril de 2011.



sábado, 2 de abril de 2011

Romance de Estrada Longa



 

Não sei se lembro direito,
o jeito que era meu pago!
A distância planta ausências
pelas estradas compridas,
e o tempo gasta a memória
groseando o cerne da vida.

Nessa época os potrilhos

nasciam, trocavam pêlos,
cresciam e pelechavam,
com maçarocas nas crinas
pelos fundões das estâncias.

Os touros abriam covas,

apartavam as companheiras
formando xucros rodeios
pra viver nos rincões lindos
das invernadas antigas,
onde cimbravam os laços
na lida das campereadas;
e as mãos do vento passando
tiravam levianas plumas
arrancadas uma a uma
dos pendões dos macegais,
replantando na Querência
nas encostas e coxilhas,
Pastos, trevais e flexilhas
e o viço dos pajonais.

Era assim naquele tempo

a campanha do meu pago!
Até mesmo sem saber,
dormia a paz nos pelegos
fincada fundo na alma
e nos galpões dos campeiros.

As águas puras das sangas

brincavam nos pedregulhos,
e quando cheias, saíam
a campo fora do leito;
empurravam as capivaras
para os tranqüilos remansos
nas beiradas dos lagoões!

Nas recorridas de campos

tropeçavam buenos fletes
pelas tocas das mulitas
metidas rasas no chão,
mansamente refugiadas
na maciez dos seus ninhos,
no vigor dos pastiçais!

Ainda lembro, era assim

quando saí do meu pago!

Quando os tahãs levantavam

das cambotas das lagoas
para as alturas do céu,
e os casais de quero-quero
impeçavam a disfarçar
suas lindezas de ninhos
pelas saliências do chão,
a primavera chegava
trazendo flores e aromas,
vestindo com novas folhas
a nudez dos cinamomos.
A vida naquele tempo
se entretia encismada
nos encantos de si mesma!

À tardinha, os maçaricos,

qual ponta escura de lança,
sempre voltavam do sul,
as asas como panuelos
tremulando no espaço
entre o verde das coxilhas
e o sem fim do céu azul.

Nas noites de lua inteira

o sereno temperava
a voz macia das gaitas,
transpondo o melhor das almas
nas plumas dos dedos rudes,
sonorizando as janelas
pelos botões dos teclados;

as emoções retoçavam

na plangência das guitarras;
e as serenatas sobravam
para o tamanho dos ranchos,
expandindo as notas claras
bem além dos pára-peitos;
e entrando pelos portais
com flecos de estrela e lua,
embalavam os sonhos lindos
de tantas moças bonitas.

Passou tudo à meia-rédea

e quase nada sobrou!

A infância nesse tempo,

tinha mais tempo de ser!
Os guris tinham bodoques,
arapucas e mundéus
gados-de-osso ou sabugo
e o lombo dos petiços
para fazer escarcéus.

Era assim naquele tempo,

mas quase nada restou!

Ficou somente a memória

de um dia de primavera
quando saí do rincão.

O sereno ainda goteava

despencando sonolento
do longo beiral de zinco
na varanda do galpão!

Rondando o varal de charque,

do alto das timbauvas,
as calhandritas cantoras
melodiavam nas gargantas
com timbras de amanhecer,
a mais sublime beleza
que um canto já pode ter.
Distraído do silêncio,
um touro berrava ao longe
mergulhando nas canhadas!

As seriemas cantavam

repetindo as clarinadas
que desciam nas ladeiras
na direção dos banhados.

E no açude "das casas",

traíras soltavam botes
formando lentas maretas
como rodilhas se abrindo
no costado do juncal.

Um biguá abria as asas

como quem quer abraçar,
alguém que andava distante
e acabasse de chegar.

E a melena dos salsos

roçava a grama da taipa
lentamente ao balanço
de uma brisa de setembro!

Emalei poncho, encilhei

peguei cavalo de tiro
mais a mala-de-garupa
toquei a vida por diante
para soltar na estrada,
a buscar não sei o que
na incerteza das léguas
pelos volteados caminhos.

Segui o primeiro rumo

que o corredor apontou;
e o tramerio perfilado,
atilhos junto das cavas
como bigodes torcidos,
mudo me olhava passar;

com um cavalo de tiro,

poncho emalado nos tentos
mais a mala-de-garupa
e a esperança no olhar!

Passavam tropas, carretas,

andejos e domadores,
comitivas e tropilhas,
comparsas de esquiladores,
todos "terseando" esperanças
na ilusão dos corredores.

E a cobiça de horizonte

me distanciou prá mui longe
plantando sinais de fogo
junto de muitas aguadas.

E a cada pouso um recuerdo

se estirava na lonjura:
Apenas quem estradeia,
sabe o que vale um momento
quando as lembranças dão volta
enleadas na ternura
e nas razões que detêm,
tironeando o pensamento
pra o meigo rosto de alguém!

Mas tudo ficou prá trás

escondido na distância
disfarçada de horizonte
sem compreender infinitos!

Até que um dia o caminho

que abriga as poeiras cansadas,
confunde o rastro do pingo
e o coração dos andejos;
e mostra mil outros rumos
pra outros idem buscar,
com seus cavalos de tiro
poncho emalado nos tentos
mais a mala-de-garupa
e a esperança no olhar;
e quem sabe iguais a mim
irão minguando esperanças;
Co'a vida longe do pago
para a saudade voltar! 

Fonte:  Do livro Romance de estrada longa – poemas – Edição: Martins Livreiro – 1995
 *Foto: do Orkut de Eron Vaz Mattos botando um pealo, Na Estância Santa Cacilda.



Autor: Eron Vaz Mattos 
Olhos D'agua/ Bagé












sexta-feira, 25 de março de 2011

Ainda esses dias...



Por um momento me paro mais quieto,silente,buscando apegos e ânsias em meus pensamentos que agoam lembranças do passado. Num repentino momento me surge a fértil lembrança de um verdadeiro herói da minha vida : meu avô ! 
-Homem de poucas palavras,olhar sério e altivo,destes paridos na fronteira sob um galpão de quincha firme,onde guardava a mais pura humildade de um ser-

É o Izidoro da fronteira,é o Izidoro filho do campo,é o Izidoro dos doces "regalados" depois dos meio-dias na intimidade de avô e neto, mas acima de tudo é o Izidoro homem de campo,que nunca deu importância para o luxo e nem para os costumes de modernismo que imperavam na cidade.
Nas largas tardes de agosto,costeando um fogo ancestral que aguentou-se pelos anos "amadrinhando" conversas de tantos outros avôs e netos,mas que naquele momento parecia luzir mais em suas lavaredas, tal como iluminasse o sentimento familiar que habitava nosso peito. 
Relembro causos de assombros e domas que encantavam meu olhar, pois aquilo que para muitos não passaria de uma mera história de dormir, para mim era como se estivesse acontecendo naquele exato momento, me atiçando ainda mais os sentidos.
Não sei se foi pelo destino que o laço familiar nos uniu... é, talvez seja mesmo,pois nunca vi duas almas que se pareciam tanto, daquelas que somente no silêncio da "mirada" sabiam de tudo que indagava e habitava o coração um do outro.
"Ninguém nasce pra semente e nem vem pra Terra pra ficar ! " . É com essa frase que o tempo mostrou sua força e encarregou-se de separar de mim quem parecia que iria permanecer ali no meu costado durante mais um largo e infindo tempo. Uma precoce despedida daquele que mereceu e sempre merecerá meu respeito por suas essência pessoal.
Confesso que às vezes olhando o horizonte banhado de azul celeste, pareço vê-lo de rédea firme na mão em seu tordilho, tal como sentado num trono de arreios...
Mas logo me recolho,calço as alpargatas e saio assim, caminhando na direção do nada, assoviando uma milonga calma enquanto relembro o que ainda esses dias traçou meus rumos de hoje.

 
" ‘As vez' me vou pela invernada e ainda escuto
Um sapucay que de um aboio se estendeu
Tirando as vacas de um capão de corticeira
Ou algum terneiro que da tropa se perdeu
Sonando em coplas pelo vento vai seu grito
Que ainda esses dias ia junto com o meu..."
 Verso : trecho da letra Ainda esses dias... de Gujo Teixeira.




Matheus Costa (Dom Pedrito)


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Rancho...



                                                                       
                                                                               

Conheci muitos Antônios, mas aparto dois, por um motivo, ambos moraram em ranchos crioulos.
Construir a própria casa com elementos naturais, é um dos costumes mais fascinantes que temos.
Um deles foi por necessidade, o outro por escolha.
Mas certamente se igualaram na sensação que eu desconheço,
a de viver entre torrões de barro e palha de varzea, levar a vida do barreiro.
Sensação mais crioula que dormir e sonhar embaixo de uma quincha de santa-fé,
só mesmo a de dormir a campo, ou no lombo do cavalo, tropeando.

As dificuldades vividas perdem importância, e nem são lembradas por quem relata:
- Ergui meu rancho onde morou minha bisavó, vivi ali, campereava, domava.
No verão, abria as janelas para entrar o ar da manhã. Lavava o rosto na bacia com água e sabão,
e com a mesma água eu umedecia o chão do rancho. Fechava as janelas antes de sair pro campo,
e quando voltava no mormaço de meio-dia, encontrava minha morada fresca e perfumada do lado de dentro...

Essa é parte de uma conversa que certamente foi esquecida por outros que a escutaram,
que tem assuntos mais importantes para tratar.
Mas eu não pude esquecer por conter alguns aspectos importantes do que foi nossa realidade primitiva, e por serem as verdades de alguém que admiro.
Um desses dois ranchos eu pude conhecer, o outro já não existia na minha passagem.
O jeito foi atirar a ossamenta em meio aos trevos, sobre o pelego, embaixo do pala e o sereno da noite, pertinho da linha.
Pra no outro dia acordar entre pingos de tropilha e badalos de cincerro...


Sinais de um rancho no chão, no ermo de uma invernada
O que restou de um abrigo que um dia já foi morada,
Cinchou o instinto andarengo de quem não pára por nada
Cravou raizes profundas no ermo dessa invernada

N'alguma dobra do campo com sombra boa e aguada
A sanga fica mais perto, murmura na madrugada
Sem mais o vicio da estrada só lhe resta a companhia
Da caneleira copando as horas mansas do dia...


Frederico Souza - Lavras do Sul-
 Fevereiro de 2011




segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A Cincha Que Aperta Tantos...




Bueno, lhes escrevo aqui algo que me vem à tona na cabeça nesse instante, talvez por motivos da nossa realidade humana atual...
Pois bem,uma simples cincha que traz firmeza aos arreios,quando alço a perna pra recorrer alguma invernada, é capaz de "apertar"  tantas verdades em seus tantos sentidos.

Um índio velho,mateando "bajo" um galpão quinchado,aperta suas lembranças com a cincha do sentimento... lembranças da vida de guri,pealos,campereadas, até o diário banho no açude depois que levava a eguada pra aliviar o suor da lida do dia...
 A cincha que aperta um pai ao ver seu filho partir,buscando novos rumos na vida, na sina do estudo,que por mais que "cinche" olhares pra trás na hora de partir, sempre na volta traz recompensas gratas...
A cincha da maldade,que pelo cinchador insano cabresteia tantos pra canhadas e mal caminhos, quem dera que essa cincha apertasse as mal feições dos políticos,que acolherados à cobiça se prendem ao "ter" e não pensam no "ser"...
Também lhes conto da buena cincha do amor... ah! essa chega dar gosto de falar, desde aqueles tempos antigos em que um cuera, abraçado a sua guitarra,madrinha das noites frias, debruçava um canto dolente,nascido nesta fronteira, só pela conquisto do encanto de dois olhos morenos,encandecentes na moldura de uma janela....
Enfim lhes pergunto senhores,quantos segredos mais será que traz uma simples cincha e seus sentidos ?
Por certo,infindos !

Bueno,por aqui meu tempo se "apequena" e aperto a cincha da despedida, neste ritual rotineiro de trazer aos versos aquilo que me fascina e me indaga por esta humilde vida fronteiriça...

 
" Couro cru traz na essência
E mil segredos guardados
Tantos sonhos sustentados
Nos sentidos que apresenta,
Cincha que nunca arrebenta
Firmando a fibra do pago
Pendurada ao galpão vago
Agora aperta silêncios
Cinchando aquilo que penso
Diante os versos que trago ! "





 Matheus Costa- Dom Pedrito-
Fevereiro de 2011


 

sábado, 11 de dezembro de 2010

Hoje foi mais que um dia...


                                                                                                                    FOTO: Guto Gonzalez
Hoje!...
Foi mais que um dia de campereada
Cheguei nas casa
Desencilhei, fiz um mate
Segui sorvendo e pensando...
Pensando de alma pesada

Hoje!...
Foi mais que um dia de campereada
Pois vi a vida enquadrada
Desde um extremo a outro
Vi dois cordeiros nascendo
E um terneirito morto

Quando sai de manhã
Soprava frio um ventito
E recorrendo eu e o Vitor
Se fomo até meio-dia
Mas notei que hoje - o dia –
Andava meio esquisito

A tarde empeçava morna
Voava alto a corvada
Era uma tarde nublada
Com jeito de viração
Que angustia o coração
Mas a gente não diz nada

Logo abaixo do rodeio
Vi dois cordeiros berrando
Pela ovelha chamando
Que ao tranco se ia embora
Por sorte foi bem na hora
Que eu ali ia cruzando

Talvez não ouvi-se os berros
Por causa do vento norte
Se ia extinguindo a sorte
Daqueles recém nascidos
Que mal os olhos abrindo
Já iam encarando a morte

Segui recorrendo o campo
Agora mais aliviado
Depois que os dois “bem mamado”
Iam ter força pra andar
Pra poderem acompanhar
A sua mãe no costado

Mas hoje!...
Foi mais que um dia de campereada
E lá na mangueira do meio
Tem umas vaca de ubre cheio
Já co`as teta bem inchada
Que tem que dá uma esgotada
Pra pode mamá os terneiro

Mas Bueno!...
Segui batendo meu basto
Nas cruz da minha tordilha
Quando avistei nas flexilha
Uma polianga deitada
Então fui dá uma chuliada
Recém tinha dado cria

Notei ainda do basto
Que o bichinho era doente
E aquela angústia de repente
No peito brotou ligero
E que a sorte dos cordeiros
Não andava mais co`a gente

Alcancei pro Paulo Sérgio
Que acomodou a terneira
Na cabeça das basteira
Levava a pobre agarrada
E eu com a vaca apartada
Em direção da mangueira

Botamo a vaca no tronco
Tiramo um pouco de leite
Fizemo mamá a doente
Pra vê se a “conchenca” salvava
Mas era pior do que pensava
Mal formada boca e dente...

No constatar o problema
A esperança ficô poca
Não tinha o céu da boca
Um buraco no lugar
E vimo que pra se salvar
Só tendo uma sorte loca

Mesmo assim... foi dado o leite
Por descargo de consciência
Mas digo pela experiência
Embora faça minha prece
Que a pobrezinha amanhece
Bem longe desta querência

Por isso, Hoje!...
Foi mais que um dia de campereada
Cheguei nas casa de alma pesada
Por ver a vida, bem enquadrada!
 Só pude olhar...

E fazer, nada!




Guto Gonzalez - Novembro de 2010
Júlio de Castilhos/RS

domingo, 21 de novembro de 2010

"Pede boca e se agranda"



Monta que resultou o 2° Lugar na modalidade de Basto aberto ao ginete Rômulo Quadros na Expofeira de Bagé 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

No Assovio das Três Marias


Na ponta de uma canhada
Relincha um caborteiro,
Que se parou mais matreiro
Depois de escorreteado,
Ventena redemoneado
Por experiente domador
No sangue leva o fervor,
E o medo do bocal atado

O barroso soberano
Sonava a venta bufando,
Com a “crineira” voando
Contra o minuano “machazo”
“*Três Marias” ganha espaço
Num assovio bem campeiro,
E foi um tiro certeiro
Mostrando a força no braço

Demorou pra se manear
Coiceando as boleadeiras
Mostrando a força grongueira
Do seu extinto animal,
No velho estilo ancestral
As “Três Marias” dos charruas
Mãe desta pampa xirua
Do jeito tradicional.

Com a *manijera na mão
Num verdadeiro escarcéu,
Soltei as pedras pro céu
Nas “cruz” desse desbocado,
Que “se quedo” no banhado
Juntando barro com couro,
Só escutei o estouro
Vendo o barroso boleado.

Aperta irmão paysano
Que o bagual ta bem boleado,
Que no sul do meu estado
Índio não anda de a pé,
Sou herdeiro de Sepé
E não levo desafouro
Bem montado no meu mouro
Nas “Três Marias” tenho fé.

*Manijera- Menor pedra da boleadeira, a qual se maneja a boleadeira.
*Três Marias – Boleadeira

Letra: Vaner Rodrigues e Carlitos de Quadros
São Sebastião-maio de 2006

Foto:Bia Barcellos